Portabilidade de crédito: como trocar sua dívida por uma mais barata
Você pode levar um empréstimo, um financiamento, o saldo do cheque especial e, desde 1º de julho de 2024, o saldo da fatura do cartão para outra instituição que cobre menos. O banco atual não pode recusar nem cobrar pela transferência; o que ele pode fazer é uma contraproposta para não perder o cliente. Na portabilidade, a dívida nova não pode ser maior que o saldo devedor nem ter prazo mais longo que o que falta: o que muda é a taxa. Se a oferta aumenta o valor ou o prazo, ela é um refinanciamento, e a conta é outra.
O que pode ser levado para outro banco
A regra está na Res. CMN 5.057/2022, que consolidou as normas de portabilidade. Entram:
- crédito pessoal e financiamentos de veículo e de imóvel;
- consignado do INSS, de servidor e de trabalhador com carteira; no Crédito do Trabalhador, a lei exige que a operação portada tenha taxa menor que a original (Lei 15.179/2025);
- saldo devedor do cheque especial;
- saldo da fatura do cartão de crédito, somando rotativo e parcelamentos numa única operação nova (Res. CMN 5.112/2023). Se o banco atual fizer contraproposta, tem de oferecer pelo menos uma opção com o mesmo prazo da proposta concorrente. A exceção é o cartão consignado, cuja fatura é descontada em folha.
No cheque especial e na fatura, a dívida rotativa vira um empréstimo com parcelas fixas no banco novo, e por isso a regra do prazo máximo não se aplica. O valor continua limitado ao saldo informado pelo banco de origem. Para quem está no rotativo, é uma alternativa a tomar um empréstimo novo para pagar a fatura, assunto do artigo sobre quitar a fatura com empréstimo: na portabilidade, o banco novo quita o saldo direto com o emissor do cartão.
Passo a passo, com os prazos da norma
- Peça o Documento Descritivo do Crédito ao banco atual. É o nome oficial (Res. CMN 5.004/2022). Ele traz número do contrato, saldo devedor atualizado, evolução do saldo, taxa de juros anual nominal e efetiva, prazo total e restante, valor de cada parcela e data do último vencimento. Tem de estar disponível nos canais eletrônicos e ser entregue na hora no atendimento presencial ou em até um dia útil nos demais canais.
- Leve o documento a outras instituições e peça proposta de portabilidade. A proposta precisa informar taxa anual, Custo Efetivo Total (CET), prazo, sistema de amortização e valor das parcelas.
- Formalize o pedido no banco novo. Ele envia a requisição ao banco atual por um sistema eletrônico de registro autorizado pelo Banco Central ou, desde uma norma do CMN de novembro de 2025, pela infraestrutura do Open Finance.
- Aguarde a janela da contraproposta. O banco atual tem até cinco dias úteis para pedir a transferência do dinheiro (três dias úteis quando o pedido corre pelo Open Finance). Se você aceitar uma contraproposta e desistir, ele avisa o banco novo em até dois dias úteis.
- Confira o encerramento. Feita a transferência, o banco de origem confirma o recebimento em até dois dias úteis e, em mais dois, entrega o documento que comprova a portabilidade. Guarde esse comprovante.
O dinheiro não passa pela sua conta, e os custos de troca de informações e de transferência entre os bancos não podem ser repassados a você.
Exemplo: quanto se economiza ao portar
Suponha um saldo devedor de R$ 10.000, com 24 parcelas restantes, num contrato a 5% ao mês, e uma proposta de outro banco a 3,5% ao mês, mantendo o prazo. A parcela cai de R$ 724,71 para R$ 622,73, uma diferença de R$ 101,98 por mês. Até o fim do contrato, você paga R$ 14.945,48 em vez de R$ 17.393,02: economia de R$ 2.447,54.
Com poucas parcelas restantes, a economia em reais encolhe. Se nesse mesmo contrato faltassem só 6 parcelas (saldo de R$ 3.678,40), as mesmas taxas economizariam R$ 206,34. Como não há custo de portabilidade para o cliente, ainda pode valer, e nada impede pedir ao seu banco que cubra a taxa oferecida.
Troque os valores pelos do seu Documento Descritivo do Crédito:
Portabilidade: quanto cai a parcela?
Na portabilidade o saldo e o prazo continuam os mesmos; muda a taxa. O banco atual pode fazer uma contraproposta antes de liberar a dívida. Taxas sugeridas: mediana do mercado na semana encerrada em 23 de setembro de 2026, segundo o Banco Central. Troque pela do seu contrato.
Para saber se o seu crédito pessoal está caro, compare o CET dele com a faixa cobrada pelas instituições na última semana publicada pelo Banco Central:
- Menor taxa
- 1,24% ao mês
- Mediana do mercado
- 6,32% ao mês
- Maior taxa
- 21,72% ao mês
Fonte: Banco Central do Brasil: taxas médias praticadas por 82 instituições, semana encerrada em 23 de setembro de 2026. Uma instituição informou taxa abaixo de um décimo da mediana e ficou fora da menor taxa: é um valor fora da curva, que não representa o mercado. Os valores mudam toda semana; confirme no canal oficial antes de contratar.
Se o seu CET está bem acima da mediana, a chance de achar oferta melhor é grande. O artigo como saber se a taxa do empréstimo está alta mostra como fazer essa comparação modalidade por modalidade.
Refinanciar no mesmo banco ou portar?
Refinanciar é trocar o contrato atual por um novo, quase sempre no mesmo banco, que pode ter prazo maior e liberar dinheiro extra, o chamado troco. A oferta de “portabilidade com troco” é isso: o banco novo quita o saldo e abre um empréstimo adicional. São duas decisões, e a primeira (portar) costuma ser boa, enquanto a segunda (pegar mais dinheiro por mais tempo) pode sair cara.
Veja com números. Saldo de R$ 10.000, 24 parcelas restantes, contrato a 2,5% ao mês, num exemplo em que as alternativas são:
| Opção (taxas do exemplo) | Parcela | Total que ainda vai pagar |
|---|---|---|
| Manter o contrato | R$ 559,13 | R$ 13.419,08 |
| Portar para 2%, mesmo prazo | R$ 528,71 | R$ 12.689,06 |
| Refinanciar em 48 meses, sem troco, mesma taxa | R$ 360,06 | R$ 17.282,88 |
| Refinanciar R$ 13.000 em 48 meses (troco de R$ 3.000), mesma taxa | R$ 468,08 | R$ 22.467,74 |
| Refinanciar R$ 13.000 em 48 meses, taxa de 2% | R$ 423,82 | R$ 20.343,55 |
A portabilidade pura economiza R$ 730,01. O refinanciamento sem troco reduz a parcela em quase R$ 200, mas custa R$ 3.863,80 a mais no total, porque estica a dívida por mais dois anos. Com troco e mesma taxa, você recebe R$ 3.000 hoje e paga R$ 9.048,66 a mais até o fim: custo líquido de R$ 6.048,66. Mesmo com a taxa menor, o troco ainda custa R$ 3.924,47.
Por isso, peça primeiro a portabilidade pura e compare o CET. Refinanciar só faz sentido quando a parcela atual não cabe mais no orçamento, e aí o custo extra do prazo maior é o preço do alívio. Para ver como o prazo pesa, leia prazo longo ou parcela menor.
O que conferir antes de assinar
- CET das duas operações: é a taxa que inclui juros, tarifas, seguros e IOF. Compare CET com CET, não taxa nominal com CET.
- Prazo e valor: na portabilidade, nenhum dos dois pode passar do que resta no contrato atual. Se a parcela nova for maior que a antiga (porque você escolheu prazo menor), o banco precisa da sua concordância expressa.
- Seguro prestamista: o contrato novo não pode ser condicionado à compra de seguro ou de outro produto. Se o antigo tinha seguro caro embutido, a portabilidade é a chance de sair dele. Veja seguro prestamista é obrigatório?
- Total em reais: some as parcelas que faltam em cada cenário. A opção mais barata é a que tem o menor total, desde que o prazo seja o mesmo.
Se o banco atual dificultar
Recusar a portabilidade, atrasar o envio dos dados, só aceitar com troco ou condicionar a saída a outra contratação são práticas irregulares. A própria norma proíbe procedimentos alternativos para chegar a um resultado parecido com a portabilidade sem segui-la. O caminho, nessa ordem:
- Ouvidoria do banco atual, com o número de protocolo do pedido.
- Reclamação no Banco Central, na página “Registrar reclamação” do site do BC, com conta gov.br prata ou ouro. O BC não resolve o caso individual, mas a instituição tem de responder, em até 10 dias úteis, e a queixa entra na fiscalização.
- Consumidor.gov.br, onde as empresas participantes se comprometem a responder em até 10 dias.
Muitas vezes o maior ganho é a contraproposta. Com a proposta do concorrente por escrito, procure o seu banco e pergunte se ele cobre o CET. Se cobrir, compare as duas pelo total a pagar e fique com a menor.