Anuidade zero ou cartão com milhas: qual compensa para você
O cartão com milhas compensa quando o valor dos pontos que você acumula em um ano supera a anuidade cheia que paga por ele; se não supera, o cartão sem anuidade entrega mais. A conta tem três números: quanto você gasta no cartão, quantos pontos ganha por real gasto e quanto vale cada ponto quando vira passagem. Num exemplo com 1 ponto por dólar, dólar a R$ 5,50 e milhas valendo R$ 25 o milheiro, uma anuidade de R$ 600 só se paga com R$ 11.000 por mês de gasto no cartão. Se o seu gasto fica bem abaixo da linha de equilíbrio do seu caso, a resposta é anuidade zero.
A fórmula do ponto de equilíbrio
Gasto mensal que empata = anuidade ÷ 12 ÷ (pontos por real × valor de um ponto)
Muitos cartões contam pontos por dólar gasto, convertido pela cotação que o emissor usa. Então, pontos por real = pontos por dólar ÷ cotação do dólar. E o valor de um ponto = valor do milheiro ÷ 1.000, se os pontos virarem milhas na proporção de 1 para 1; se a transferência for de 2 pontos para 1 milha, divida esse valor por dois.
No exemplo do primeiro parágrafo, cada real gasto rende 0,1818 ponto, que vale cerca de R$ 0,0045: um retorno de 0,45% do gasto. Para os pontos de um ano somarem R$ 600, o gasto anual precisa ser de R$ 132.000, ou R$ 11.000 por mês. A tabela mostra o gasto mensal de equilíbrio para outras combinações, com o mesmo dólar de R$ 5,50 e milheiro de R$ 25:
| Pontos por dólar | Anuidade de R$ 400 | Anuidade de R$ 600 | Anuidade de R$ 1.200 |
|---|---|---|---|
| 1 | R$ 7.333 | R$ 11.000 | R$ 22.000 |
| 1,5 | R$ 4.889 | R$ 7.333 | R$ 14.667 |
| 2,5 | R$ 2.933 | R$ 4.400 | R$ 8.800 |
Se o seu milheiro vale menos, o gasto necessário sobe na mesma proporção. Com milheiro de R$ 15, o cartão de 2,5 pontos por dólar e anuidade de R$ 600 pede R$ 7.333 por mês; com milheiro de R$ 50, pede R$ 2.200.
Como saber quanto vale o seu milheiro
O valor do milheiro é o preço em dinheiro da passagem dividido pelo número de milhares de milhas exigidas, comparando situações iguais. Se a passagem custa R$ 1.000 mais R$ 80 de taxas, ou 20.000 milhas mais os mesmos R$ 80 de taxas, as taxas se anulam e a conta é R$ 1.000 ÷ 20 = R$ 50 por milheiro. Só desconte as taxas quando o preço em dinheiro já as incluir: se a passagem custa R$ 1.080 com taxas, a conta é R$ 1.080 menos R$ 80, dividido por 20, o que dá os mesmos R$ 50.
Faça a conta com as rotas e datas que você realmente usa, não com o melhor resgate que aparece em anúncio. Resgate em produtos costuma render bem menos por milheiro do que passagem; o guia sobre como não perder pontos mostra essa comparação.
O que mais entra na conta
- Anuidade cheia, não a promocional. Isenção no primeiro ano é comum; a partir do segundo, vale a tarifa cheia. Desde julho de 2024, o emissor tem de avisar com pelo menos um mês de antecedência quando a anuidade vai começar a ser cobrada depois de um período de isenção (Res. BCB 96/2021, art. 11-C). Use esse aviso para decidir se fica.
- Isenção por gasto mínimo. Gastar R$ 500 a mais em compras que você não faria para economizar R$ 40 de parcela da anuidade é perder R$ 460.
- Gasto no exterior. Compras internacionais no cartão pagam IOF de 3,5% (Decreto 12.499/2025). Em US$ 1.000 gastos com dólar a R$ 5,50, são R$ 192,50 de IOF, contra R$ 50 em pontos num cartão de 2 pontos por dólar com milheiro de R$ 25. Os pontos não compensam o imposto.
- Bônus de transferência que vence rápido. Em promoções de transferência, as milhas bônus podem ter validade bem menor que a das milhas transferidas; conte só o que você conseguirá usar.
- Cashback como alternativa. Um cartão que devolve 1% em dinheiro equivale, com 1 ponto por dólar e dólar a R$ 5,50, a milhas valendo R$ 55 o milheiro. Veja como avaliar um cartão com cashback.
Cartão básico: o que a regra garante
Toda instituição que emite cartão de crédito é obrigada a oferecer a pessoas físicas um cartão básico, nacional ou internacional, que não pode ter programa de recompensas (Res. CMN 3.919/2010, art. 10). A anuidade de um cartão com programa de benefícios não pode ser igual ou menor que a do básico internacional, exceto nos cartões híbridos emitidos em acordo com lojas (art. 11). E a anuidade só pode ser cobrada uma vez a cada 12 meses, com parcelamento permitido. Se o emissor só mostrar opções com pontos e anuidade alta, peça o cartão básico pelo nome.
Quando o cartão com milhas compensa, e quando não
- Compensa se o seu gasto mensal no cartão, pago integralmente, fica com folga acima da linha de equilíbrio do seu caso, e se você tem viagens planejadas para usar as milhas antes de vencerem.
- Compensa também se você usaria de qualquer jeito os benefícios acessórios, como seguro viagem e sala VIP, e eles custariam mais que a anuidade se comprados à parte. A conta dos seguros está em seguros do cartão.
- Não compensa no primeiro cartão: nessa fase o que conta é pagar a fatura inteira e em dia, e anuidade é custo sem retorno. Veja primeiro cartão de crédito.
- Não compensa para quem às vezes paga menos que o total da fatura. Desde 2024, juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura podem chegar ao valor original da dívida (Lei 14.690/2023), e nenhum programa de pontos devolve isso.